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José Lino Souza Barros

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Um cadillac por beijo 

Um cadillac por beijo 

17/06/2017 às 11:16

Ouça a crônica na voz de José Lino Souza Barros!

Durante vários dias, andou perguntando a um e outro:
— Vocês viram o Ferreira?
— Qual deles?
O Mendes tinha de descrever o tipo físico do homem.
— Tu não conheces? Moreno, estiloso e bonitão, parecido com o Tony Ramos.
A semelhança indicada era o bastante. Diziam: “Ah, sim! Conheço! Mas não aparece aqui há muito tempo”. Mendes agradecia e continuava a procurar. Em toda a parte, porém, a resposta era a mesma: ninguém vira o Ferreira. Ele coçava a cabeça: “Será o Benedito?”. Deixou em cada boteco, recados angustiosos. E já desanimava quando, certo dia, dá de cara com o Meireles na rua. Pergunta-lhe: “Tens visto a besta do Ferreira?”. O outro sacode os braços até as nuvens:
— O Ferreira? Mas que coincidência! Acabei de largar o Ferreira agorinha mesmo! E olha: não faz um minuto!
— No duro?
E o Meireles:
— Claro! Está trabalhando numa casa de móveis assim, assim, no Centro. Foi pra lá neste instante!
Mendes despede-se, afobado:
— Então, bye, bye.

Mendes fora, décadas atrás, empresário pugilista. Teve dinheiro, automóvel e amantes. Mas o boxe começou a cair e a desinteressar o público; as bilheterias acusavam uma queda vertical. E, de repente, ocorre o inevitável, ou seja, a falência espetacular do Mendes. Sem um níquel no bolso, barba crescida, o terno sebento, andando de cima para baixo, de baixo para cima, fugindo dos credores. Nunca mais fez negócio que se aproveitasse; vivia de bicos ou, então, “mordendo” os amigos, os conhecidos. Atualmente velho, roto, desdentado, ia de mal a pior quando se lembrou do Ferreira. Decide de si para si: “Esse cretino pode me salvar a pátria!”. Começou a procurá-lo e eis que o localiza, no Centro, numa casa de móveis.
Espera que Ferreira saia do emprego. Na calçada, gruda-se a ele. Começa perguntando: “Quanto ganhas nesse troço?”. O belo Ferreira, espantado, informa: “Mil e Oitocentos reais”. Em cima do meio-fio, Mendes esbraveja:
— E não tens vergonha? Responde! Não tens vergonha de ganhar esse salário pra um sujeito, como tu, que tem uma mina? — Espeta o dedo no peito do rapaz:— Ou não percebeste ainda que tens uma mina?
— Eu? E qual?
Mendes pisca o olho e baixa a voz:
— O teu físico! Percebeste? Teu físico é uma mina! Basta saber tirar partido. É barbada!
Interessado, embora sem entender, Ferreira indaga:
— Mas como? Explica esse negócio direito!

Entraram num café para conversar sobre a idéia que o próprio Mendes reputava “genial, luminosa”. O empresário trata de ser o mais claro possível:
— Um sujeito como tu, bonitão como tu, pode se quiser fazer a própria independência, tirar o pé da miséria. Sabe como? Simples como água: alugando os próprios carinhos. Digamos que uma mulher te veja e goste de ti. Muito bem. Ela te paga pela tua companhia, paga para estar contigo, paga pelos teus beijos. Percebeste?
Apavorado, Ferreira ergue-se em câmara lenta:
— Que piada é essa? Tu me achas com cara de tomar dinheiro? E a polícia? Isso dá cana! 
O outro protesta, incisivo:
— Cana uma ova! Depende da mulher, ouviste? Se for uma desclassificada, sim. Mas se for uma pequena séria, direitíssima, de bem, não dá coisíssima nenhuma.
Ferreira nega ainda:
— Nunca! Que idéia você faz de mim? Prefiro ficar com o meu salário, quieto no meu canto. Não me meto nessas embrulhadas.

Dizia que o caso estava encerrado. Mas o Mendes era astuto e obstinado. Não largou mais o amigo. E apelava, ora para argumentos, ora para a descompostura. E provocava: — “Deixa de ser burro, rapaz! Aproveita!”. E dizia:
— Já tenho a garota. Cheia da grana e deslumbrada por ti. Te dá um carrão, de cara!
Ferreira perguntava:
— E me conhece? Resposta:
— Claro. Já te viu várias vezes! Não tem pai, não tem mãe, não tem irmã. É só, absolutamente só, não tem ninguém para dar palpites!
Ferreira, pálido apesar de tudo, impressionado, resistia: “Não, não e não!”. Até que, certa tarde, manifestou uma curiosidade que era, em si mesma, uma fraqueza: — “Boa?”. Mendes pigarreia, desconcertado:
— Simpática. Mas olha, você não toca no assunto de dinheiro. Eu trato disso e, depois de receber, dou a tua parte e fico com a minha.
E, pouco a pouco, com outras conversas, Ferreira inteirou-se de novos detalhes. A fulana tinha prédios, avenidas e o diabo. Como jamais tivera namorado, vivia numa fome de amor inenarrável. Ferreira quis saber: “Que idade tem?”. O outro coça a cabeça:
— Aparenta uns trinta e poucos.

Onde e quando descobrira o empresário aquela mulher solitária, triste e ricaça? Era o que ninguém sabia. É impossível que o Ferreira tivesse resistido sempre, e de repente... O fato é que brigou com o chefe e saiu do emprego. Mendes tirou partido da situação; puxa-o pelo braço: — “Hoje vamos lá de qualquer maneira. Te apresento e pronto!”. Desta vez, apavorado com a demissão, Ferreira capitulou. Ao cair da noite, os dois nervosíssimos, bateu na porta da dama. No caminho, Mendes adverte: “A fulana não é, fisicamente, grande coisa. Agüenta o galho”.
Chamava-se Olívia. E vivia numa solidão que era um mistério. Onde estariam seus parentes? Era a pergunta que o próprio Mendes fazia de si para si, sem achar resposta. Mas o Ferreira, quando foi apresentado, caiu das nuvens. Há feias e feias. Mas a feiúra de Olívia era absolutamente indescritível. Uma carinha de preá, um nariz adunco, uns dentes saltados, de coelho, e os olhos de um estrabismo violento. Quando ela passava na rua, cochichavam: “Lá vem a caolha!”. Mendes falara de trinta e poucos anos. E a verdade é que, dando de barato, Olívia teria talvez seus cinqüenta e quebrados.
Houve um momento em que, erguendo-se, ela pediu licença a Ferreira e retirou-se com o Mendes para uma sala ao lado. Ferreira fica só então, levanta-se e vai à janela. Podia ser curto de inteligência, como assoalhava o Mendes. Era, porém, um bom, um manso, um compassivo.
Diante de Olívia experimentava duas reações: primeiro, de repulsa, de horror; e depois, de pena, de uma pena que lhe dava vontade de chorar, de gritar, de espernear.

Na outra sala, Olívia pôs-se a chorar diante do atônito ex-empresário de boxe. Torce e destorce as mãos, num desespero selvagem:
— Eu nunca fui beijada, nunca ninguém me beijou. Homem nenhum quis nada comigo. Eu sei que não sou bonita... Mas eu queria uma coisa só... — Aumentado o estrabismo, estende as mãos: — Eu daria tudo para ter um beijo, só um beijo do seu amigo, oh, meu Deus!
Mendes foi rápido e brutal:
— Daria um carrão? 
E ela:
— Daria.
Mendes se arremessa para a outra sala. Deslumbrado, agarra Ferreira. Contou-lhe o sonho da solteirona, que ninguém jamais a beijara. O empresário trinca os dentes: “Negócio de maluco, da China! Um carro por um beijo! Que tal?”. Ferreira parece hesitar: por fim, empurrado, decide-se. Vai encontrar de joelhos, e mais estrábica do que nunca, a solteirona. Ela se levanta ao vê-lo. Então, o rapaz, sem uma palavra, segura aquela mulher e beija-a na boca, longamente, como no cinema. Depois, arquejante, a larga. Olívia pôs-se a soluçar, numa felicidade aterradora. Finalmente dominando-se, diz:
— Você merece tudo! Tudo!
Vira-se, vai a um móvel apanhar o talão de cheques e enche um deles. Depois vem entregar o papel ao belo Ferreira. Ele pega aquilo, lê o preço do carro e rasga, metodicamente, o cheque fabuloso. Inclina-se diante dela:
— A senhora não me deve nada. Não me deve um tostão. Passar bem.
Depois que Ferreira saiu, acompanhado do indignado Mendes, a solteirona, como que magnetizada, vai para a janela. Era noite e, no alto, uma estrela brilhou mais claro. Ela finalmente experimentara a felicidade!

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